7 de janeiro de 2016

Os que se foram em Dezembro de 2015

Marília Pêra (1943-2015)

Em A Moreninha, um de seus primeiros papéis na TV Globo (1975) ( Divulgação TV Globo)
Marília foi um verdadeiro monumento do TTT ( Teatro, TV e Telona). Onde passou deixou marcas com sua interpretação arrebatadora e única. Por isso o choque generalizado no meio quando foi anunciado o seu falecimento no dia 05/12. Seu currículo é grandioso: 50 peças, quase 30 filmes, mais de 40 novelas, minisséries e programas especiais. Seu berço/casa/território era mesmo o teatro, onde recebeu dezenas de prêmios, inclusive como diretora ( O Mistério de Irma Vap, estreou em 1986 e ficou em cartaz com sucesso por longos anos. Já o longa adaptado da peça e dirigido por Carla Camurati foi um fracasso que Marília chegou a "comemorar" na época). Foi no teatro também que teve um dos seus dias pessoalmente mais dramáticos: em 1968, a peça de Chico Buarque de Hollanda "Roda Viva", encenada por Marília ( na segunda temporada), foi invadida por cerca de 100 membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e teve seu cenário e figurino destruídos e o elenco hostilizado e vítima de agressões. Um pouco antes, a atriz já tinha contrato com a nascente TV Globo, emendando novelas como Rosinha do Sobrado ( 1965) e A Moreninha ( 1965). Marília continuou brilhando no teatro ano a ano mas direcionou suas baterias para a televisão com mais veemência na primeira metade da década de 70, obtendo alguns de seus melhores momentos na telinha, via Rede Globo.
Em Uma Rosa Com Amor (1972) com Grande Otelo ( Divulgação TV Globo)

Foi o caso da novela "Uma Rosa com Amor" de 1972/1973, contracenando com um elenco de primeira, destacando Paulo Goulart, Grande Otelo, Lélia Abramo, Felipe Carone, Yoná Magalhães e Tônia Carrero. O interessante é que eu, do alto dos meus 5 anos de idade, me lembro de quase tudo dessa trama: o cortiço, os bonecos de marionetes do Seu Pimpinoni (Grande Otelo), Yoná loira,etc. Nesse mesmo 1972 fez o especial Viva Marília, um termômetro da sua grande fase na emissora. A atriz, que também já mostrou inúmeras vezes seu dote de cantora e dançarina em musicais ( além de gravar um LP inteiro em 1975 pela Som Livre - "Feiticeira"), nunca deixou de ser contratada da Globo, mas com sua preferência natural para o teatro e suas atuações pontuais e perenes no cinema - a cena de Pixote com Marília Pêra amamentando o menor ficará para sempre entre as imagens mais marcantes da sétima arte - os papéis em novelas se tornaram bem espaçados e algumas vezes aquém de sua importância como intérprete. Houve sim bons e esparsos momentos - JK, Incidente em Antares, Elas por Ela ( outro especial à sua altura), O Primo Basílio, Quem Ama Não Mata - mas já a partir dos anos 70, o palco era definitivamente a casa sagrada de Marília. Não sei se talvez por conta desse distanciamento, a TV Globo pecou em não fazer um especial em homenagem a uma de suas mais genuínas e brilhantes atrizes. Pipocaram aqui e ali algumas retrospectivas na programação normal da emissora, mas nada relevante.

Seu último papel, em Pé na Cova ( divulgação TV Globo)
Seu último papel, ainda no ar, como a alcoólatra Darlene (desde 2013, mas com intervalos forçados pela sua saúde) em Pé na Cova, de Miguel Falabella, é mais uma de suas interpretações memoráveis. A série terá uma última temporada em 2016 e Marília, apesar da dificuldade que teve em gravar, estará presente em todos os capítulos. Uma despedida digna de uma diva genuína.

https://www.youtube.com/watch?v=y8ToEddXzbI


Lemmy Kilmister (1945-2015)


O baixista, cantor , compositor e líder da banda Motorhead faleceu no dia 28/12, depois de ter diagnosticado um câncer raro e agressivo dois dias antes. Sua saúde já andava abalada há uns anos e alguns compromissos da banda foram cancelados por conta disso, mas sempre que possível, lá estava ele à frente, tocando e cantando seus hinos pesados para a platéia sempre ávida e deixando uma impressão enganosa de que continuava inabalável. Lemmy é daqueles ícones do rock que acabam extrapolando o próprio rock em si e viram lenda viva - pelo seu modo de vida, pelo seu visual, pelas suas letras, pelos seus casos pessoais incríveis e principalmente por não ter medo de dar as caras e bater de frente sempre que possível com qualquer assunto que seja. O Motorhead, claro, anunciou seu fim logo depois do anúncio do óbito - Lemmy era o único integrante a passar por toda a trajetória do grupo que fundou. A banda foi seminal na evolução do gênero mais pesado do rock, injetando adrenalina e velocidade ao hard e ao heavy metal misturada à atitude estradeira e punk. Pelo menos três discos merecem ser exibidos no panteão das grandes obras de rock de todos os tempos: Bomber ( 1979), Ace of Spades (1980 - com a faixa título que virou assinatura da banda) e No Sleep'Til Hammersmith (1981 - considerado um dos grandes discos ao vivo do rock pesado). Não que os outros lançamentos não mereçam uma ouvida - todos tem seus grandes momentos. Lemmy estava na estrada do rock há tempos: começou em bandas obscuras dos anos 60, passou pelo exótico Sam Gopal entre 1968 e 1969 até se firmar na louca banda Hawkwind, de space rock, onde permaneceu de 1972 a 1975.

Motorhead original. O baterista Phil "Animal" Taylor, à direita, faleceu em novembro.

Depois veio a avalanche chamada Motorhead, de onde nunca mais saiu ( paralelamente chegou a fazer um projeto de rockabilly chamado The Head Cat, desde 2000) e que mudou o rock pra sempre. Valeu, Lemmy, por devolver ao rock sua honestidade e rebeldia ainda dos tempos do rock and roll negro.

https://www.youtube.com/watch?v=H42FmyDBmWA


William Guest (1941-2015)

Cantor do grupo Gladys Knight & The Pips, uma legenda da música negra mundial, faleceu em 26/12. Por 36 anos ( 1953 a 1989) Guest integrou a banda, continuando na música depois através de sua produtora e trabalhando como CEO da Crew Records. Em 2013, coescreveu com seu irmão a autobiografia "Midnight Train for Georgia: A Pips Journey".

https://www.youtube.com/watch?v=HwbmufPphP0



John Bradbury (1953-2015)


Bradbury foi baterista dos Specials, um dos grupos ingleses que revitalizaram o Ska nos anos 80 e se engajaram na luta contra o racismo. Ele entrou dois anos depois da fundação da banda, em 1979, e se tornou um dos grandes instrumentistas do período, logo respeitado pelo meio, com um estilo todo próprio e inovador. Fez a passagem no dia 28/12.


https://www.youtube.com/watch?v=nxHcx7FO8nI


Tutuca (1932-2015)


Um dos últimos remanescentes da velha guarda do humor ainda ativos na TV de anos mais recentes, Tutuca começou a carreira nos anos 50. No programa Balança Mas Não Cai, simultâneo na rádio e TV criou o faxineiro que vivia de olho na mulherada, com o famoso bordão "Ah, se ela me desse bola...". Mais tarde outro bordão seu - "Xiiii" - caiu na boca do povo. Desde então, Tutuca frequentou dezenas de programas humorísticos na telinha, de Apertura á Praça é Nossa, de Sob Nova Direção à Zorra Total ( uma de suas últimas participações). No cinema, estreou junto com Jô Soares no "O Homem do Sputnik", de 1959 e se destacou no "O Homem que Roubou a Copa do Mundo" de 1962, ao lado de Ronald Golias. Nos últimos tempos esteve no elenco de "Os Normais" e "A Guerra dos Rocha", considerado por ele um dos mais importantes de que participou. Faleceu em 03/12.


https://www.youtube.com/watch?v=kgOy_-TKfYU


Paulo Hamasaki ( 1941-2015)

Da esquerda para a direita: Fausto Takaoka, Gilberto Firmino e Paulo Hamasaki, nos tempos da Noblet ( arquivo: Gilberto Firmino)
Desenhista, editor de HQs e diretor de arte, teve participação crucial na produção de quadrinhos na década de 60 e 70. Começou como estagiário na CEPTA ( Cooperativa Editora e Trabalho de Porto Alegre), iniciativa interessante de abertura da distribuição de autores nacionais que acabou abortada com o início da Ditadura Militar. Em seguida, passou a ser um dos primeiros colaboradores de Maurício de Sousa, tornando-se o primeiro diretor de arte em seu estúdio. Nessa época, Maurício ainda não tinha revistas em banca com seus personagens e o forte era a distribuição de tiras para jornais de todo país e a edição da Folhinha, suplemento da Folha de São Paulo com passatempos e quadrinhos. Uma de suas ideias originais, "Os Dez Ajustados", sobre uma família e seus problemas cotidianos, acabou sendo distribuída via Mauricio em 1967. 
Um de seus personagens em revista própria, pela Grafipar
Entre os anos 70 e 80, colaborou para a Editora Abril - onde chegou a publicar na revista Contigo, "Cris, a Repórter" - para a Noblet, a M&C (Mimani &Cunha) e para a Grafipar. A partir daí, virou editor independente, lançando revistas com seus antigos personagens, como Ágata, Torn, Caruncho&Caroço, Sanjuro, entre outros, e também novos talentos.
Aqui, uma daquelas minuciosas e saborosas entrevistas feitas por Tony Fernandes. Ele conversou com Hamasaki em 2011

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